Fichamento Livro Hertzberger
Destaco aqui alguns trechos do autor ao longo dos capítulos que achei interessante:
A - Domínio Público
Quando, ao projetar cada espaço e segmento, temos consciência do grau de relevância da demarcação territorial e das formas concomitantes das possibilidades de “acesso” aos espaços vizinhos, podemos expressar essas diferenças pela articulação de forma, material luz e cor, e introduzir certo ordenamento no projeto como um todo. Isto por sua vez, pode aumentar a consciência dos moradores e visitantes quanto a composição do edifício, formado por ambientes diferentes no que diz respeito ao acesso. A escolha de motivos arquitetônicos, sua articulação, forma e material são determinados, em parte, pelo grau de acesso exigido por um espaço.
A influência dos usuários pode ser estimulada, pelo menos nos lugares certos, onde se pode esperar o envolvimento necessário; e como isto depende do grau de acesso, das demarcações territoriais, da organização da manutenção e da divisão de responsabilidades, é essencial que o projetista esteja plenamente consciente desses fatores nas suas gradações adequadas.
Um “ninho seguro” - um espaço conhecido à nossa volta, onde sabemos que nossas coisas estão seguras e onde podemos nos concentrar sem sermos perturbados pelos outros - é algo de que cada indivíduo precisa tanto quanto o grupo. Sem isso não pode haver colaboração com os outros. Se você não tem um lugar que possa chamar seu, você não sabe onde está.
A concretização da soleira como intervalo significa, em primeiro lugar e acima de tudo, criar um espaço para as boas-vindas e as despedidas, e, portanto, é a tradução em termos arquitetônicos da hospitalidade. Além disso, a soleira é tão importante para o contato social quanto as paredes grossas para a privacidade. Condições para a privacidade e condições para manter os contatos sociais com os outros são igualmente necessários. Entradas, alpendres e muitas outras formas de espaços de intervalo fornecem uma oportunidade para a “acomodação” entre mundos contíguos. Esta espécie de dispositivo dá margem a certa articulação de edifício em foco, o que requer espaço e dinheiro, sem que sua função possa ser facilmente demonstrável - e ainda menos quantificável - e, por isso esse motivo, torna-se muitas vezes difícil de realizar, exigindo esforço e trabalho de persuasão constante durante a fase de planejamento.
Se incorporamos as sugestões espaciais adequadas em nosso projeto, os moradores sentem-se mais inclinados a expandir sua esfera de influência em direção à área pública. Até mesmo um pequeno ajustamento, na forma de uma articulação espacial da entrada, pode ser o bastante para estimular a expansão da esfera de influência pessoal, e, deste modo, a qualidade do espaço público será consideravelmente aprimorada no interesse comum.
O arquiteto pode contribuir para criar um ambiente que ofereça muito mais oportunidades para que as pessoas deixem suas marcas e identificações pessoais, que possa ser apropriado e anexado por todos como um lugar que realmente lhes “pertença”.
B - Criando Espaço, Deixando Espaço
A forma principal que chamamos estrutura é coletiva por natureza, controlada geralmente por um órgão do governo e é essencialmente pública. O controle de seu uso pode ter desde o de caráter mais público até o mais privado, dependendo dos interesses comerciais em jogo.
Enquanto, por um lado, a estrutura representa o coletivo, por outro, a maneira como pode ser interpretada representa as exigências individuais, reconciliando assim o individual e o coletivo.
Assim como a linguagem é necessária para nos expressarmos coletivamente em termos de estrutura, também é necessária uma estrutura formal coletiva para que possamos nos expressar espacialmente em nosso ambiente. Se há alguma coisa que se destaca entre todos esses exemplos, é certamente o paradoxo de que a restrição de um princípio estruturador (urdidura, espinha dorsal, grade) aparentemente não resulta em diminuição mas sim em expansão das possibilidades de adaptação e, portanto, das possibilidades individuais de expressão. O tema estrutural correto não restringe a liberdade, mas conduz a liberdade! Assim, a maneira como a estrutura é preenchida não é mais subserviente à estrutura do que a estrutura é subserviente à maneira como é preenchida.
Grelha - O princípio de ordenamento mínimo da cidade por meio de uma grelha é conhecido desde que se inventou o planejamento urbano. Há cidades que, por causa de uma série de acontecimentos, não evoluíram segundo um processo gradual de crescimento. O ponto de partida é quase sempre o lote retangular ou quadrado: ruas cercando quadras cujas dimensões correspondem ao método de construção escolhido, ainda que em princípios elas possam ser preenchidas de várias maneiras, já que a natureza do preenchimento depende das características do período em que ele é exigido.
A concepção mais equivocada quanto ao sistema de grelha é a ideia de que ele conduz quase que inevitavelmente à monotonia, e que seu efeito é a idéia de que ele conduz quase que inevitavelmente à monotonia, e que seu efeito é opressivo. Estes perigos realmente existem, mas aqui temos exemplos suficientes para provar que, numa extensão gigantesca de edifícios, os aspectos negativos se tornam secundários. Se o ordenamento da grelha realmente expandirá as possibilidades de variação em vez de reduzí-las, é algo que irá depender, em primeiro lugar e acima de tudo, da descoberta do verdadeiro equilíbrio entre as regulamentações e a liberdade de escolha.
Em termos simples, seria possível dizer que o ordenamento da construção é a unidade que surge num edifício quando as partes tomadas em conjunto determinam o todo, e inversamente, quando as partes isoladas derivam desse todo de modo igualmente lógico. A unidade resultante do projeto que emprega consistentemente essa reciprocidade - partes determinando o todo e determinadas por ele - pode num certo sentido ser visto como uma estrutura.
O ordenamento da construção de um projeto é o resultado de uma compreensão mais profunda dos usos que lhe serão atribuídos, agora e no futuro. O ordenamento de construção antecipa deste modo o “desempenho” que se pode esperar dele. E a partir daí uma “competência” é (re)construída por meio de um processo indutivo. Portanto, cada desígnio arquitetônico contém um incentivo para desenvolver uma nova ordem, uma ordem emanando da natureza específica deste. Assim como cada ordem representa um mecanismo específico ela também tende a ser exclusiva desse mecanismo. Diferentes objetivos são enfatizados em diferentes momentos, mais a questão central com a estrutura é o paradoxo de um ordenamento que cria liberdade - um horizonte presente em todo o plano.
C - Forma Convidativa
Devemos ter cuidado para não deixar buracos e cantos perdidos e sem utilidade, e que, como não servem para nenhum objetivo, são “inabitáveis”. Um arquiteto não deve desperdiçar espaço ao organizar seu material, pelo contrário, deve acrescentar espaço, e não só nos lugares óbvios que chamam a atenção de qualquer maneira, mas também em lugares que em geral não despertem atenção, entre as coisas.
O espaço habitável entre as coisas representa um deslocamento da atenção do âmbito oficial para o informal, onde se condiz a vida cotidiana, e isto quer dizer entre os significados estabelecidos da função explícita.
Uma sala pequena demais para seu objetivo é inadequada, assim como um espaço grande demais, pois, ainda que se mostre suficientemente grande para conter muita coisa, isto não significa necessariamente que seja adequada para deixar as pessoas à vontade. Têm de ser como roupas nem apertadas demais a ponto de se tornarem desconfortáveis, nem largas demais a ponto de atrapalharem os movimentos. A maior parte dos arquitetos, quando não são tolhidos por regras e regulamentos, tende a criar espaços grandes demais em vez de pequenos demais. Tudo é tão aberto e espaçoso quanto possível, eliminando as objeções usuais e compreensíveis, mas os arquitetos não compreendem que podem estar desperdiçando possibilidades com seu gesto grandioso, tornando as coisas mais impossíveis do que possíveis. Quanto maiores as dimensões, maior a dificuldade de usá-las com o máximo de vantagem.
O uso que se faz do espaço determina suas proporções corretas, e, como as condições arquitetônicas e espaciais de um lugar encorajam certas formas de uso e desencorajam outras, os arquitetos têm uma tremenda influência, quer queiram quer não, sobre o que pode acontecer e acontecerá num espaço.
Faça de cada coisa um lugar, faça de cada casa e de cada cidade uma porção de lugares, pois uma casa é uma cidade minúscula e uma cidade é uma casa enorme. - Aldo van Eyck
Articulação - O espaço, deve sempre ser articulado para criar lugares, unidades espaciais cujas dimensões e níveis de demarcação possam torná-las capazes de acomodar o padrão de relações dos que vão usá-las. A maneira como o espaço é articulado constitui um fator decisivo: determinará se o espaço será adequado para um grande grupo de pessoas, por exemplo, ou para grupos pequenos, separados. Quanto mais articulação houver, menor será a unidade espacial, e, quanto mais centros de atenção existirem, mais o efeito total será individualizante - isto é, muitas atividades poderão ser conduzidas ao mesmo tempo por grupos separados.
Um espaço amplo articulado com ousadia não desencoraja necessariamente seu uso por um único grupo central, ou, inversamente, um espaço amplo inarticulado não deixa necessariamente de criar as condições para vários usos ao mesmo tempo. Na verdade, é possível articular um espaço de tal modo que seja adequado tanto para o uso centralizado como para o uso descentralizado, caso em que podemos adotar tanto o conceito de grande escala como o conceito de pequena escala, dependendo de como queremos interpretar o espaço.
A articulação conduz, portanto, à “expansão da capacidade” e assim, a um rendimento maior do material disponível. Necessita-se desta maneira de menos material, graças à sua maior intensidade.
Todas as coisas devem receber dimensões corretas, e as dimensões corretas são aquelas que as tornam tão manuseáveis quanto possíveis. Se decidirmos parar de fazer as coisas do tamanho errado, logo se tornará claro que quase tudo deve ser feito um pouco menor. As coisas só devem ser grandes quando forem compostas de um conjunto de unidades pequenas, pois dimensões excessivas criam imediatamente distância e separação, e, ao insistirem em projetar numa escala demasiado ampla, grandiosa e vazia, os arquitetos se tornaram produtores em grande escala de distância e alienação. A grandeza baseada em multiplicidade implica a complexidade maior, e esta complexidade aumenta o potencial interpretativo graças à maior diversidade de relações e à interação dos componentes individuais que juntos formam o todo.
Nossa arquitetura deve ser capaz de acomodar todas essas diversas situações que afetam a maneira como um edifício é entendido e usado. Ela não só deve ser capaz de adaptar-se às condições mutáveis do tempo e às diversas estações, como deve também adequar se para ser usada tanto durante o dia quanto durante a noite; deve ser deliberadamente projetada para responder a todos esses fenômenos.
O arquiteto deve levar em conta todos esses diversos tipos de usos, assim como os sentimentos e os desejos dos vários tipos de pessoas, cada uma com o seu padrão específico de expectativas, suas próprias possibilidades e restrições. O projeto definitivo deve estar harmonizado com todos os dados intelectuais e emocionais que o arquiteto possa imaginar, e deve relacionar-se com todas as percepções sensoriais do espaço. As percepções do espaço consistem não só no que vemos, como também no que ouvimos, sentimos, e até mesmo no que cheiramos - assim como nas associações que despertam.
Desta maneira, a arquitetura também é capaz de mostrar o que não é realmente visível, e despertar associações de que não tínhamos consciência antes. Se conseguirmos produzir uma arquitetura que seja capaz de incorporar diferentes níveis, de tal modo que as diversas realidades, tal como encontradas nas diversas camadas da consciência, possam ser refletidas no projeto, então o ambiente arquitetônico poderá visualizar essas realidades e dizer algo “sobre o mundo” aos usuários.
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Para trazer exemplos de outras arquiteturas que possam dialogar com o livro, pensei no prédio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP) projetado pelo arquiteto Vilanova Artigas. O prédio possui fluidez em seu interior, integração dos espaços, graus de abertura e isolamento, articulação e é entendido como esquema conceitual aberto a distintas interpretações formais, de acordo com a arquiteta Ana Paula Pontes em seu mestrado “Diálogos silenciosos: arquitetura moderna e tradição clássica” (2004).


Outro exemplo é o complexo Festival, em Naha, em Okinawa, projetado pelo arquiteto Tadao Ando. Com os seus espaços vazados e andares que permitem uma comunicação mais aberta entre as pessoas, incentivando a interação social ao mesmo tempo que reserva o individualismo de cada um por meio da distribuição espacial do complexo.


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